domingo, 10 de maio de 2015

Saudade com final feliz


De todas as sensações que o meu coração tem, a saudade é uma das mais constantes. Quando não é possível suportá-la, muitas vezes ela acaba se mesclando com a dor de uma ausência que não consigo preencher. Hoje, estou aqui para falar de uma saudade digna, livre. Que posso sentir e matar, sem medo, culpa e engano.

Essa semana, numa quinta-feira fria de outono em que eu oscilava entre estar aflita e estar mais ou menos, ouvi no rádio uma música bonita que conheci recentemente: Qualquer palavra. A voz linda do Lenine somada à leveza da melodia e da letra me despertou uma saudade daquele que é a expressão perfeita da música que há em mim. Imaginei a canção na sua voz e seus acordes, ambos de perfeição e poder de cura incomparáveis. Cura, a palavra-chave para o que eu precisava.

Peguei o telefone, buscando o nome dele. Nome que remete à palavra, ao livro de verbetes, definições e significados; que está organizado em ordem alfabética. Se ele soubesse que quando se faz presente em minha vida, sob os holofotes,  me organiza por dentro de A a Z...

Liguei. A voz dele, o tempo todo, soava como se ele estivesse cantando. Falei sobre sua lembrança que me ocorreu enquanto eu ouvia a música, e que esta era a razão do meu contato. E é tão bom poder surgir na vida do outro a qualquer momento.

A quinta-feira fria de outono não foi só de tristeza. O encontro que se deu naquela noite renovou meus ânimos. Há sorrisos que nos dizem o quanto somos bem-vindos. Há canções que nos curam. Há abraços que nos devolvem o que a distância e a falta de tempo nos roubaram. Saudade com final feliz pode sempre ser sentida. É indolor.





sábado, 6 de dezembro de 2014

Sóbria e nua


Sabe estes seus prazeres habituais próprios das noites de sextas-feiras ou sábados quentes? Eu jamais poderia acompanhar, porque ainda que eu pareça ser esse poço de profanidade, em relação a você, estou a um passo de ser canonizada. Para que você tenha ideia, o único álcool que permiti adentrar à minha corrente sanguínea foi o do vinho da santa ceia nos tempos em que eu ocupava o banco do templo, sonhava em chegar ao altar trajando, merecidamente,  o vestido branco e o longo véu marcador social de pureza e castidade. Eu disse bem: social. Debaixo dos panos desta vida e também desta veste de noiva, o que de fato ocorre só o corpo que os ocupam  e o corpo que faz a invasão sabem. Segredo. Toda moça é pura  até que dela surja uma outra vida. Alarde.
Mas eu não bebo e nem me visto. Estou sóbria e nua na vida. 

sábado, 15 de novembro de 2014

O primeiro quarteto


Quando a minha menina chegar, ela se chamará como aquela que tem como o sobrenome Meireles. Lá em casa todo mundo será feito de palavra, em verso: Pedro (Bandeira) e Cecilia (Meireles) vindos de Clarisse (Lispector) e de algum desses Vinícius, Mários, Oswalds, Paulos ou Drummonds que a vida quiser - se é que vai querer - me dar. 

Eu sou uma palavra que busca outra. O nosso encontro será uma rima. Nós e os frutos dessa rima seremos uma família, mas eu prefiro chamar de estrofe, porque estrofe nada mais é que a soma de palavras que se sintonizaram em versos ditando o ritmo, a métrica. Cada um de nós é verso e, juntos, vamos ser, quem sabe, o primeiro quarteto do Soneto de Fidelidade* que é, para mim, a expressão da perfeição de uma estrofe. 

Duas palavras. Uma rima, a sintonia. Amor em poesia. Primeiro um verso, depois outro, depois outro e mais um último. Com as mãos unidas, surgirá um quarteto. Começará em mim, um ser atento, procurando aquele que eu quero tanto. Desejo e amor darão vida a quem tem nome cheio de encanto, irmão daquela que, hoje, deu início a essa desordem, verbalização do meu pensamento.

Primeira estrofe do Soneto de Fidelidade, de Vinícius de Moraes. Manuscrito: Clarisse Reis

sábado, 12 de julho de 2014

Indiretas


Você sabe que eu sou a expressão perfeita do desequilíbrio. Portanto, sem a mínima preocupação em demonstrar ou esconder alguma loucura, deixarei que corram soltas essas minhas imaginações absurdas. Com elas amenizo minha saudade, encurto distâncias, te tenho comigo e recebo o seus recados. Sim, você me manda recados. Não sou eu quem está dizendo, é minha mente louca, entenda. Essa imaginação é a minha forma de te ter quando você me falta. Através do que você lê e ouve, vou conhecendo várias coisas dessa vida e, quando me conta sobre elas, fico livre para imaginar que são indiretas. Sei que não são. Se fossem mesmo, talvez não teriam tanto sentido.

Não me recordo de qual foi a primeira indicação que você me fez, mas a primeira mais relevante foi O Teatro mágico, sob o argumento de que "pelo seu jeito, você vai gostar muito". Preciso falar que a sua afirmação me deixou alegre? Com isso você me dizia, indiretamente, que sabia algo a mais sobre mim.  Eu já conhecia de ouvir falar, mas nunca havia escutado nenhuma música. Foi então que, escolhendo o topo de uma lista das mais tocadas, ouvi O que se perde enquanto os olhos piscam. A pergunta feita no final dessa canção é a mesma que eu sempre me faço: "pra onde foi a coragem do meu coração?"

E o que é grandioso nessa sua recomendação é que ela ocorreu exatamente no dia em que você me fez uma repreensão pelo meu telefonema. Ou seja, por trás de todo desequilíbrio que eu demonstrei com a minha ligação, ainda consegui deixar transparecer pra você, em algum momento, a minha verdadeira essência. Esse meu romantismo incurável que não consegue passar despercebido.



Num dia em que estávamos falando sobre bandas,  eu disse que gostava muito do Creed, pois passei a adolescência inteira ouvindo. Você, ao contrário, disse que não gostava porque o vocalista imitava muito o Pearl Jam, banda que tem sua grande admiração.
A música que eu mais conhecia era I am mine, que tocou muito no rádio em 2002, no meu auge de Creed. Mas ao saber o quanto você gostava, acabei reconhecendo outras canções e que hoje são para mim a representação sonora exata de sua pessoa e fazem com que a sua presença seja concreta. Alive é a mais forte de todas elas. Inclusive eu já te disse do que seria capaz de te fazer ouvindo-a. Mas, observando a letra de Black - que também tem seu lugar nessa trilha - é possível perceber que os últimos versos tratam da minha condição e que era exatamente o meu questionamento antes de saber da sua verdade.

"I know someday you'll have a beautiful life
I know you'll be a star
In somebody else's sky
But why, why, why
Can't it be, oh can't it be mine?

Eu sei que algum dia você terá uma vida maravilhosa, eu sei que você será uma estrela
No céu de um outro alguém, mas por quê? Por quê? por quê?
Não pode ser, não pode ser no meu?"


Há quase um ano, o Pearl Jam lançou um novo álbum de estúdio, Lightning bolt, e a primeira música que ouvi foi Sirens. Concluo que é injusto separar apenas uma estrofe, considerando que toda a canção trata de uma única verdade. Sei que essas coisas de amor - quando são sobre nós dois -  assustam e afastam. Então, gostaria de te pedir licença para colocar tais coisas em nosso "mundo paralelo", criado por você mesmo, pois na realidade não há nada disso do que eu digo. E já que somos uma fuga de realidade um para o outro...

"It’s a fragile thing this life we lead
If I think too much, I can get over
Whelmed by the grace
By which we live our lives
With death over our shoulders
Want you to know, that should I go
I always loved you, held you high above, true.

É uma coisa frágil essa vida que levamos,
se eu pensar muito, eu não consigo superar
Oprimido pela graça
pelo modo como vivemos nossa vida
com a morte sobre nossos ombros
Quero que você saiba que eu se eu partir,
eu sempre te amei, sempre te mantive no topo."



Quando tivemos o nosso "hiato", essas canções (com exceção de Sirens, por eu conhecer recentemente) eram tudo o que eu não queria ouvir, por achar que você era uma lembrança negativa, mesmo que no fundo não era. Prova disso é o meu pensamento que voava até você quando as redes balançavam a favor do Gigante celeste. Mas quando se deu o seu retorno - que eu achei que nunca aconteceria - vem você deixando mais um motivo para que pudesse fazer associações, me apresentando Arctic Monkeys. O carro chefe? Nada menos que Do I wanna Know, o retrato da minha psicopatia, como definiria "aquela que possui verdades absolutas":

Have you got colour in your cheeks?
Do you ever get the fear that you can't shift the type that sticks around like summat in your teeth?
Are there some aces up your sleeve?
Have you no idea that you're in deep?
I dreamed about you nearly every night this week
How many secrets can you keep?
'Cause there's this tune I found that makes me think of you somehow and I play it on repeat
Until I fall asleep
Spilling drinks on my settee

Você tem cor em suas bochechas?
Você já teve aquele medo de não poder mudar a maré que gruda ao redor como algo em seus dentes?
Tem alguns ases na sua manga?
Você não tem ideia de que é minha obsessão?
Eu sonhei com você quase todas as noites essa semana
Quantos segredos você consegue guardar?
Porque há essa música que encontrei que me faz pensar em você de alguma forma e eu a coloco para repetir
Até eu dormir

Crawlin' back to you
Ever thought of calling when you've had a few?
'Cause I always do
Maybe I'm too busy being yours to fall for somebody new
Now I've thought it through
Crawlin' back to you

Me rastejando de volta para você
Já pensou em ligar quando você tomou umas?
Porque eu sempre penso
Talvez eu esteja muito ocupado sendo seu para me apaixonar por um novo alguém
Agora tenho pensado bem sobre isso
Me rastejando de volta para você
Derramando bebidas no meu sofá

So have you got the guts?
Been wondering if your heart's still open
And if so I wanna know what time it shuts
Simmer down and pucker up
I'm sorry to interrupt
It's just I'm constantly on the cusp
Of trying into kiss you
But I don't know if you feel the same as I do
But we could be together if you wanted to

Então você tem coragem?
Fico me perguntando se seu coração ainda está aberto
E, se estiver, eu quero saber que horas ele fecha
Se acalme e prepare seus lábios
Sinto muito interromper
É que apenas estou constantemente à beira
De tentar te beijar
Mas eu não sei se você sente o mesmo que eu sinto
Mas nós poderíamos estar juntos, se você quisesse.




Comecei esse texto dizendo que não me recordava de qual seria a sua  primeira indicação. Acabei me recordando, mas não quis fazer mudanças. Foi me contando sobre a performance de uma participante da primeira edição do The Voice Brasil que surgiu a recomendação. "Ela cantou uma música de uma banda que eu gosto muito: Audioslave. Conhece?" Ao dizer que sim, acabei ganhando pontos com você, lembra? Provavelmente não! A música é Cochise, do Cd que nós temos. Acabei conseguindo os outros álbuns e descobri a música que mais me lembra você: Dandelion, que em breve ficará marcada em minha pele, pra sempre, com esta representação:

Little dandelion let your heart keep time ♪

Agora, sabe aquela história de "Dar-te-ei"? É o sentido literal mesmo, aquele que você havia entendido, confesso agora. É muito mais do que a música do Marcelo Jeneci, que eu gosto muito e você não conhece.

"Dar-te-ei a mim mesmo agora
E serei mais que alguém que vai correndo pro fim
Esse morre... envelhece... acaba e chora... ama e quer... desespera esse vai... mas esse volta."




Fui muito louca em escrever e associar essas coisas? Se a sua resposta for sim, deixo as primeiras palavras que eu vi daquele louco que conheci através de você:



segunda-feira, 21 de abril de 2014

7 minutos

Olhei ao redor do quarto. Poderia ser a última vez que eu contemplaria esse lugar que reflete tudo o que sou, impresso em cada detalhe: nas fotos que retratam a minha metamorfose, no pôster e nas bandeiras do Gigante Celeste que tanto me masculinizam, nas diversas bonecas que me eternizam como menina, num contraste entre a vaidade que não possuo e o meu instinto maternal. Abri o guarda-roupa escasso e, quase sem nenhuma escolha, retirei as peças que me envolveriam. O último detalhe da produção, que carecia de glamour, era a flor que enfeitava e suavizava a agressividade dos meus fios crespos. 

Atravessei três cidades sob a chuva forte que caía na tarde de uma quarta-feira de outono. Não quis me atrasar, ainda que o excesso de tempo pudesse causar ansiedade. Nós tínhamos um combinado. Será que você teria coragem de me deixar ser consumida pelas horas, como naquela vez? Agora as razões do encontro eram outras, tratava-se apenas de um empréstimo, uma gentileza sua para que o meu acesso fosse facilitado. Gentileza também da vida, que reconheceu o quanto eu padeci no quarto, sozinha, toda vez que a bola sacudia as redes. Era em você que o meu sentido ia, imediatamente. Agora eu estaria vendo tudo de perto, libertando, junto à multidão,  os meus gritos cativos. Dessa vez, mais do que em nenhuma outra, você estaria comigo, materializado em forma de uma credencial em seu nome, o nome de santo, o nome mais bonito, o mesmo do meu primogênito já gerado pelo meu coração.


Com a antecedência prevista, chego ao lugar que você sugeriu, batizado com uma referência ao movimento estético da aristocracia francesa. Escolho uma mesa pequena da calçada, encosto o guarda-chuva fortemente marcado pelo meu trajeto e alivio o incômodo causado pelos meus sapatinhos novos e feios que comiam os meus pés molhados. A televisão, sintonizada num canal esportivo, falava sobre o clube que você queria ver em campo lá do outro lado do mundo. Ela servia de companhia e amenizava a passagem do tempo que avançava.
Um suco. Um chiclete. O meu olhar em direção à avenida. O relógio bem na minha frente não me deixava esquecer do compromisso. Será que você se lembrava dele? Será que você seria vencido pela vergonha? Vergonha da sua melhor parte? 

19 horas. Todos minutos posteriores a essa hora seriam prazo extra. Por mais quanto tempo eu esperaria? Observo todos os homens que passavam por ali, bem vestidos em sua maioria. A chuva, agora mais branda, era o elemento mais desejado por mim como composição de cenário, lembra de me ouvir dizer isso sempre?
19h09. Meio desatenta, retomo a atenção para avenida outra vez e vejo um homem alto, correndo, vencendo os pingos. Era você. "O tempo é só meu e ninguém registra a cena. De repente vira um filme todo em câmera lenta."  Sorrio e, talvez, inconvenientemente, bato o dedo indicador no punho, sinalizando o seu atraso curto, mas que poderia ser, novamente, uma ausência.

Era você. Era, finalmente, o seu abraço e o beijo de saudação. Breves. Era sua voz pela primeira vez. Era você e um certo desconcerto notável somado a uma respiração ofegante obtida em seus passos largos. Um rosto sem defeito, marcado pela presença do rubor que só você tem, aquele rubor. Era o seu cabelo castanho e brilhante que os meus dedos de unhas curtas desejam tocar. Eram os olhos que tanto me intimidam. Olhos de piscadas constantes. Era o homem mais bonito que eu já fui ver. Era você vestido, bem vestido, preenchendo um terno escuro e uma gravata que a minha memória confusa insiste que é vermelha, mas não tenho certeza.

Eu não tinha muito tempo. Em pé, com uma pressa visível, você providencia o empréstimo, dizendo "o que é que a gente não faz pelo Cruzeiro?". Consegue perceber que o que nos une é bem maior  que o que nos separa? Mas isso, a seu ver, deve ser apenas mais uma das coisas que eu fico na cabeça e que na verdade é seu jeito sutil de me chamar de louca.
Dediquei várias horas do meu dia em um longo percurso para ter 7 minutos. Tempo máximo que consegui te roubar. Cada pergunta ou comentário que eu fazia era uma forma de estender sua presença, como nas mil e uma noites. Você se senta, atendendo o meu pedido, e escreve o código óbvio no guardanapo com a mão em que está o anel que demarca território e que por muito tempo foi ocultado. Comenta sobre a sua viagem do dia seguinte, para a cidade luz, onde fica a avenida que eu soube que existia aos 14 anos, no livro "De Paris, com amor", a Champs - Elysées. 

Sem conseguir estender mais a minha fala, sua pressa me vence. "Depois conversamos com calma." O seu abraço e o beijo de despedida. Breves. Fico sem saber o seu cheiro. Desejo boa viagem, sabendo que a sua ausência era certeza para a próxima quinzena. Você precisava voltar ao trabalho, pois no dia seguinte viajaria para o velho mundo.
19h16. Passaram-se 7 minutos entre a sua chegada e a sua partida que eu não acompanhei com os olhos. Ao meu redor, as mesmas pessoas que ocupavam as mesas e não me notavam. Invisibilidade própria de quem possui grandes formas. O tempo só passou pra mim. Só acabou pra mim.


Tento facilitar o troco ao pagar a conta de valor baixo. Recebo um olhar indiferente, talvez pela insatisfação do pequeno consumo. Um suco. Um chiclete. Poderia ser mais, moço, mas só durou 7 minutos. Desconsidere o tempo da minha espera, justifico assim, mentalmente, pro gerente que me atende.

Encarei o trajeto longo, novamente. Dessa vez com o acréscimo do horário de pico. Entrei naquele ônibus que você conhece bem e que falávamos outro dia. Volto pra casa com uma parte sua disfarçada de empréstimo. Volto pro meu mundo velho enquanto você se prepara para partir pro velho mundo. A minha porção da Europa fica na charmosa arquitetura em volta da praça da Liberdade que vejo pela janela embaçada.
Esse encontro se estende até os dias de hoje. Ainda temos o 'jogo de volta', a devolução. Tomara que ultrapasse 7 minutos. É muito pouco.



domingo, 20 de abril de 2014

"A flor, O Casaco e a Sapatilha" ou "Ela" ou "A Viagem"



"Na noite onde todos estamos, 
o sábio esbarra com a parede,
 enquanto o ignorante fica
 tranquilamente no meio do quarto." 
(Anatole France)

Sou eu que contemplo os ensejos realistas de cada indivíduo. Não sou nenhuma deusa, mas te conheço bem. Talvez, pra você, eu seja a divisória do escritório ou a cerca da sua intimidade. Por ser estrutura me atraem os detalhes: o cheiro vindo do banheiro após banhos sofisticados, o perfume renovado, a acidez das lágrimas evaporadas, as cores desvanecidas, as aquarelas diluídas. Esta é a minha forma de  estar presente e, ao mesmo tempo, invisível.  

...
Reconheço-me acompanhada ao assimilar os monólogos neuróticos, as conversas proibidas, as aspirações, a linguagem não verbalizada, o olhar perdido na paisagem luz. O Sexo.
Tenho experiência e, por isso, sei que os casais mais apressados não esperam pelo champanhe. A cama trepidava com a ferocidade dos dois felinos, sob pena de ilustrar o pensamento corrupto do hóspede vizinho. Confesso que admiro enlaces passionais, pois são nos atestados afetivos que se dá a morte da solidão.
Ao lado do rodapé, uma corriqueira sapatilha. No cabideiro, o casaco esportivo. O serviço do hotel traria o jantar. Ainda haveria apetite?

...
A moça sentada estava tão emudecida que assemelhava-se a uma exótica estátua renascentista. As suas pernas adiposas já não eram as mesmas dos abundantes registros. A flor vermelha adornava sua crespura, sua coroa. Ainda no quartinho de charme imaturo, ela acertou os últimos detalhes do empréstimo: uma princesa, um príncipe e um cartão de time futebolístico?

...
Um ruído primitivo gritava do lado externo: era a chuva. Atenta a cada pessoa que atravessava o portal do bar, ela parecia sentir visceralmente a investida do tempo. O seu rosto era o rascunho de insegurança e ansiedade.
           
 Um Jovem bonito, de casaco esportivo e aliança no dedo, chegou perfurando sua projeção. Faria questão de adentrar ao núcleo pouco corrompido?
_ OI. _ Ela disse com o olhar enviesado.
_ Demorei muito? _ Ofegante e visivelmente tímido, disse.
_ Nada. Cheguei tem pouco tempo também. Senta aí, véi._ Mentiu, lançando mão de uma coloquialidade quase inapropriada. Um silêncio constrangedor permeou a interlocução.
_ Toma o cartão. Usa ele de boa, porque amanhã eu vou viajar. _ Já sentado, ele olhou para a mão a segurar a credencial azul.
_ Pra onde? _ Ela perguntou por impulso. Se lembraria disso no choro da antemanhã.
_ Vou para a Europa com a minha NOIVA.
Estirada na Champs-Elysées! _ Endurecida pela fala do rapaz, ela brincou.
_ Pô... Falô então. Tenho que ir. Quando eu voltar a gente combina de você me devolver. _ Riu constrangidamente e se despediu não tendo mais repertório.
_ Belezinha então. Tchau.

 O cartão solitário foi depositado em cima da pequena mesa. Ela sentiu o casaco molhado ao abraçá-lo. No entanto, sem saber muito bem, as suas paredes se irrigaram sob tensão involuntária.
 O divo foi embora, atravessou a rua e entrou em seu carro branco. Meio estática, ela contou as moedas para a passagem. Voltaria de ônibus, leria “Perto do Coração Selvagem”, idealizaria um amor romântico e, como o último ato, conjugaria os seus verbos no futuro do pretérito. O mundo só era possibilidades e não saberia que, naquela noite, as suas fotos dormiriam sozinhas. Horas mais tarde, ouviu-se um comentário entre garçons:

_ Lembra da moça gorda? Aquela que esperou um tempão, sô... Da flor vermelha! Pois é,  morreu atropelada na rua de cima. 


Sabe aquele trecho do poema Infância do Drummond que ele diz "Eu não sabia que a minha história era mais bonita que a de Robinson Crusoé" ? Então, eu estou me sentindo assim. Foi impressionante como um simples relato da minha vida, sem detalhes, se transformou nessa crônica maravilhosa escrita pelo Raphael Brian, autor do blog Eu me transformo em outros.

Eu e minha vida brega e cheia de sonhos. A Macabea e sua dor de existência, cruelmente ignorada. Nós duas juntas numa só. Obrigada, Rapha! A satisfação de ter sido transformada em literatura é indescritível. É uma forma de sermos eternizados.


terça-feira, 4 de março de 2014

Os achados em que eu me perdia


Outro dia, procurando o número de um telefone em uma agenda velha, achei umas confissões que fiz em uns papeis, na madrugada de 12 de julho de 2013. Em meio aos fogos de artifício da torcida adversária - que não deixavam ninguém dormir -  eu ouvia um CD da Legião Urbana, chorava de saudade e também de raiva. O que escrevi se encontra incompleto, mas acho que vale o registro aqui porque a minha maior vontade, expressa naquele dia, foi atendida. Usarei alguns termos para definir algumas pessoas e não citar nomes. Sei que cometi algumas injustiças com alguns comentários, mas são parte de pensamentos soltos que me ocorreram naquela noite:

Estou ouvindo Uma outra estação, da Legião Urbana, de férias, sem nem um real no bolso e o computador estragado. Beijei o Ladrão essa semana, mas ainda sinto falta do Meu pequeno dente-de-leão. Não posso tê-lo e não falarei mais com ele. Estou mais tranquila quanto a isso, ainda mais sabendo as razões de tal impossibilidade.

Ontem o Atlético ganhou o jogo da semi-final da Libertadores e 'ele' deve estar puto. Eu estou também. Queria estar com raiva junto dele, mas nem tanto. Já foi mais forte. Ainda assim eu chorei porque gostaria de ter alguém para estar com raiva junto, xingar e secar. Com ele era desse jeito. Nem tão intenso, mas nas poucas oportunidades que tínhamos de falar sobre, comentávamos. Lembro-me de ele me dizer que estava "num medo danado deles ganharem essa Libertadores". Estamos enfurecidos juntos, mas à distância.

Qual a razão de eu estar falando tanto dele assim? Aquela ansiedade que eu tinha já está mais fraca. Eu sei que não posso ter nenhum anseio sobre ele também. Ele que se sentiu esperto demais com seu poder de conquista sem pensar que poderia ser descoberto. Enfim, Meu pequeno dente-de-leão, você não deve continuar em mim. Vá embora.

Na página seguinte da agenda há um outro registro que eu não me lembro se foi escrito na mesma noite. Pela forma de tratamento direcionada ao meu destinatário, posso concluir que era um reflexo bem forte da minha leitura de Flores Azuis, de Carola Saavedra, um romance epistolar que parece ter sido vivido por mim:

Meu querido,
sei exatamente onde te encontrar, mas não tenho o direito de ir até você. Nós não podemos. E é por isso que eu te escrevo, pois, nem que seja por acidente, um dia você leia a minha palavra. Você já leu meu corpo, os meus sinais e o meu coração. Eu sei que você leu. Somente quem faz a leitura da parte mais preciosa que possuo é capaz de fazer um recuo tão acentuado como o seu.

Eu quero que você me leia. Eu exijo isso da vida. Não é justo que alguém me dê tantas linhas, não as veja e não saiba o que contém em cada verso. Você é a razão de cada um deles. Eu me recordo de ter te passado um excerto, aquele que descrevia a transfiguração do seu rosto. Sabe essa transfiguração que eu nunca vi igual e que nunca mais verei porque o seu rosto não deve ser visto por mim? Não deve ser visto por ninguém, você me entende?




Meu lugar de ser feliz*

Dezembro de 2012
7 de dezembro de 1992. Há 20 anos Deus abençoou minha família com uma casa neste bairro em que eu passei a maior parte dos meus dias; onde eu tenho amizades da infância, da escola de ensino fundamental - e que é a minha segunda casa-, dos tempos da Igreja Católica e  dos meus vizinhos, mesmo que muitos deles, sem motivos esclarecidos, deixem de dar pelo menos bom dia. Mas existem aqueles vizinhos que você sabe que são  seus parentes imediatos, como o Luiz (Galooooooo!).

Meu bairro tem o nome feio, mas um valor imensurável em sua essência. Aqui, há 20 anos, estou escrevendo a minha história. Agradeço a Deus, a vida e as pessoas que me dão a alegria de morar na casa mais bonita do mundo: a minha casa azul, com pés de cana, varanda com rede e passarinhos cantando. Meu lugar de ser feliz!
 
Janeiro de 2014

*Texto escrito em dezembro de 2012, no Facebook,  em comemoração aos 20 anos da minha mudança para esse lugar.






segunda-feira, 27 de janeiro de 2014

Confusão

Deixa, deixa, deixa eu dizer o que penso desta vida, preciso demais desabafar!♪

Confusão. Essa é a descrição mais próxima do que está passando pela minha cabeça desde que decidi escrever aqui novamente. São pensamentos desordenados, reflexões sensatas, desejo, repulsa, amor, desamor. Tudo se contrapõe na mesma proporção. Frases soltas querem ser assuntos isolados, mas usarei a beleza de cada uma delas na construção do todo. Ainda não sei qual será a resultante dessa fusão. Se eu conseguir me desafogar com as palavras, já estarei satisfeita.

Confusão. Hoje, 26 de janeiro de 2014, faz exatos 10 anos que eu comecei a escrever um diário - em uma agenda que ganhei de presente - para registrar os caminhos do meu coração naquela época. Comecei dizendo que aquelas folhas seriam insuficientes para eu contar os meus segredos. Eu tinha esperança de que quando eu ficasse mais velha os relatos serviriam para eu rir daquela fase. Dez anos se passaram e concluo que verdadeiramente muita coisa mudou, mas continuo com os afetos e a sensibilidade de uma menina de 15 anos, mas com 10 anos de experiência. Síndrome de Peter Pan? Não. É apenas o meu coração que se nega a se corromper, embora nem sempre seja assim. Tenho o hábito de escrever tudo o que arde em meu coração. Escrever é catarse e está proibido calar catarses.

Confusão. Eu gostaria de registrar o turbilhão de pensamentos que me ocorre quando estou dentro do ônibus. Com a cabeça encostada na janela, a paisagem ficando para trás, eu faço um filme com o que acontece de trágico e cômico em  minha vida. As baladas que tocam no meu fone de ouvido parecem fazer parte do roteiro. O solo de guitarra entra em sincronia com o vento que balança o meu cabelo. Esse filme eu ensaio, dirijo, enceno e assisto. Rio e choro com as minhas histórias. Sou a mocinha, a heroína, a vilã, a negra de vozeirão dos musicais. Eu sou a outra. Sou convidada e intrusa. Sou Cinderela que ultrapassa a meia- noite e duelo, indiretamente, com a Bela Adormecida, essa princesa que não sabe que seu príncipe se aproveita do seu sono. 

Confusão. Minhas vontades não se entendem. Há em mim um desejo de convencer alguém a ficar e também de mandar um outro ir embora, aquele que, na verdade, já se foi e nunca deveria ter voltado. Mas meu coração, condomínio sem guarita, permitiu alguns acessos desse ladrão de subjetividade e dignidade; ladrão de tempo, sonhos e moeda também. Ladrão que se sente no direito de estipular valores, de investir muito no superficial e poupar no profundo. Ladrão que ostenta proporcionalmente ao tamanho de seu vazio.

Confusão. Estou no dia da semana em que sempre há o começo do ciclo da partida e chegada e das partidas de uma nova temporada dos guerreiros celestes. Somos nós, de novo, na mesma sintonia. É o meu coração que se acelera, e dessa vez se acelerou no fim da tarde, adiantando a minha alegria dominical e a saudade semanal num encontro secreto, breve e sem despedida.

Confusão. Não tenho mais o que dizer. Já me sinto satisfeita por conseguir fazer dessa desordem minha plenitude. Esse escrito foi só uma fuga. Eu disse tudo, sem dizer nada com nada.

terça-feira, 21 de janeiro de 2014

A minha saudade

Na minha cabeça, hoje é o dia do nosso encontro. Domingo, dia do descanso, para mim é tédio. A menos que sua palavra, que é o seu jeito de estar presente, venha me sacudir por dentro como sempre.

No meu som, a trilha repetida, porém incansável, que é a junção de tudo o que escolhi, cuidadosamente, para aquele nosso dia que não existiu. Baladas de um desejo que não se abalou. Canções que falariam sobre nós dois ali, na consumação do fato, no ápice.  Mas foi apenas uma ideia que você cogitou - inúmeras vezes, me recordo. Hoje, percebo que tais músicas falam só sobre mim. São elas que embalam a minha saudade. Sim, eu sinto saudade de você. Muita. Mas no momento em que surgiu aquela sua pergunta, só coube a mim ser contida. Qualquer desvio poderia significar a sua falta para todo o sempre. Isso seria muita covardia, não acha? Saudade é a minha palavra-chave que abrirá e fechará as portas e é, também, a definição da sua ausência.

"(...) e com saudade de mim, está?" Se não soasse tão agressivo, eu poderia dizer que a sua pergunta foi idiota, não fosse ela apenas uma frase feita, típica de quem não tem muito o que dizer, mas que não queira, talvez, encerrar a conversa, a nossa conversa, o nosso encontro, o que eu anseio como o fim e o começo das minhas semanas. A pergunta que não quer calar e a resposta que precisa ser silêncio, insisto.

O que é que o seu coração sabe sobre saudade? A sua interrogação rasa desconhecia a profundidade que tinha na minha resposta que se calou. Que a gente nunca diga "estou com saudade", só da boca pra fora. Eu sempre digo do coração pra dentro, na alma, sabe como?

Tudo isso eu te escrevi enquanto te esperava. A minha saudade se aguçou por ser noite de domingo e por eu ouvir Even Flow, que você disse ser "a melhor música de todos os tempos e mais uns anos pra frente." Essa canção descontrolada que me lembra alguém que me faz perder o controle.

Na sua demora, uma voz interna, maldosa, dizia que hoje o seu sono não foi condenado ao sofá, e que o calor que resolveu dar trégua possibilita que a sua noite seja envolvida apenas com o calor de abraços e dos corpos em conchas.

Eu só tenho a falta que sinto e dois travesseiros  que me recebem como um colo. Mas eis que você, no melhor estilo  antes tarde do que nunca, interrompe minha escrita. A minha madrugada é invadida e preenchida pelo seu elogio que me devolve o que os outros me roubam, o seu 'amor' tendo a paciência como prova, seu desafio lançado e a minha atitude ridícula de provar o meu 'amor'; a minha intimidade em troca da sua permanência e a imagem do seu rosto transfigurado. E sim, você estava mais bonito como eu nunca havia visto. Faltou apenas a nossa sincronia, não é? Nós dois transfigurados aos mesmo tempo pela mesma razão, razão esta que nos mantém unidos. 

O tempo, que sempre conspira contra mim, passa rápido sem que eu perceba. Chega a soar controvérsia, já que conto os dias pra te ver e horas que você fica. Vejo, então, que a luz da sua janela está apagada, a certeza de sua partida. Vencida a saudade, é necessário vencer a insônia, minha outra adversária. Durmo com seu rosto no pensamento e tenho como consequência os sonhos mais desordenados, numa manhã de segunda-feira. Eu, você, sua verdade, o nosso segredo quase revelado (a canção proibida),  meu desatino todo expresso em uma carta para "aquela que possui as minhas verdades absolutas" como outrora. Deus! Como eu queria ter em mãos, agora, esta carta do sonho. Nela, constava a resposta de toda essa minha verdade em relação a você, no meu subconsciente, em forma de desabafo. Acordo, desorientada, esquecendo-me de tudo o que havia escrito na correspondência. A única coisa da qual me lembro é que sou uma louca, mas isso você sem saber, dia após dia, não me deixa esquecer. 

Há 24 horas que você veio. Atravessei tais horas escrevendo sobre a saudade que sinto e que se perpetua no movimento entre a sua partida e o seu retorno. Assim são todas as minhas semanas.


segunda-feira, 25 de novembro de 2013

A sagrada e o profano


Coração sagrado. Olhos profanos.
Amor sagrado. Desejo profano.
Minha palavra profana disfarçando o sagrado que não pode revelar-se.
A sagrada e o profano.
Você e eu. Nosso encontro às escuras.

"Todo mundo tem um ponto fraco. Você é o meu, por que não?"  Cazuza


Direito de resposta


E o magoador viu sentido nestas palavras: "Não deixe a porta do seu coração aberta para quem está só de visita." Depois de todas as vezes que eu deixei a porta aberta, agora ele pode saber como é que eu me senti. Ainda que não tenha sido feita uma menção a mim, tenho direito de resposta. Então, saiba que o problema é quando a porta do coração tem sensor de presença: abre e fecha. Feliz e sábio é quem sabe fechá-la. Contudo, também há maçanetas que não resistem a certas mãos.

Fechar as  portas... fechar as portas... fechar as  portas... jogo bonito de palavras, mas que na prática não está diretamente ligado ao domínio humano. "Mesmo quando a razão manda, é o coração que marca o ritmo." 
Essa é pra você, magoador, que agora está no lugar de magoado. Percebe que o teu coração não é blindado? 

terça-feira, 29 de outubro de 2013

Meu pequeno dente-de-leão


E agora que tudo está calmo, sente aqui comigo porque eu vou te contar como tudo isso passou a ser desde aquela noite de outubro, quando você chegou.
Você, uma flor amarela com suas pétalas soltas pelo ar, veio voando até mim. 

Eu, garimpeira dos amores, procurando encontrar um diamante em meio a multidão de cascalhos.
Eu, jardineira das ilusões, procurando por uma flor encantadora  onde só havia ervas daninhas.

Mergulhamos na madrugada com a lua incansável e como uma pérola. Eu pensava que o caminho que me levou a você fosse celestial, com beija-flores e nuvens. Mera ilusão. Mas enquanto a verdade não vinha à tona, eu pude tê-lo nas mãos, te rendendo com o sopro de vida que saia de dentro de mim e te desfazia em mil pétalas. Eu te deixava consumido e ardente. 

O tempo em que você esteve em meu jardim fez com que eu me florescesse por dentro, e isso só foi possível com as podas que tive que fazer. Você semeava profanidade no meu campo sagrado e eu permiti que essa semente brotasse.

Meu pequeno dente-de-leão, agora que as nuvens se foram e todo o brilho da manhã nos envolve outra vez , você tenta tenta me levar de volta ao seu suave e quente mundo. Escute a minha voz, eu sei que você pode: nós não podemos continuar.

As estações vêm e vão. Você chegou numa primavera, se despediu em um fim de outono e me privou de tê-lo no inverno. Agora regressa numa outra primavera que refloresce todas aquelas sensações. Só deixando você saber: eu não vou correr, não vou me esconder. Agora que a escuridão se dissipou, tudo refloresceu maior do que era antes.

Meu pequeno dente-de-leão, você é o sol em forma de homem. você é o fogo em meus olhos e tem a chama que mais me fez arder até hoje.  Eu sou um girassol. Te seguirei com o olhar aonde quer que você vá.
Você é também a flor que não pode permanecer em meu jardim.


Um dente-de-leão que me surpreendeu hoje ao chegar na universidade. 

A vida me dando a chance tê-lo nas mãos novamente, sem ferimentos, sem culpa.

segunda-feira, 21 de outubro de 2013

A canção proibida


Eu te escrevi e você me leu. Quando você me olhou, me enxergou por dentro e leu a mim também. Diante de ti eu sou palavra. Você, diante de mim, é melodia. Juntos, nós somos uma canção, mas que não deve ser tocada, a canção proibida. O nosso concerto não deve ser visto. Cabe a nós ser silêncio. Esse silêncio guardará nosso segredo.

Eu sou popular. Você erudito. No nosso encontro nos tornamos uma sinfonia. Você é o maestro e eu instrumentista. Com o mover das suas mãos, a batuta nos ares, você me conduz à nota mais aguda. Nenhum outro consegue regência tão eficaz.

Os concertos tiveram uma breve pausa e até pensei que nunca mais voltariam. A canção proibida ainda era sua fonte de inspiração. Eu não sabia. Somente pela lembrança da sua maestria consegui, sozinha,  subir alguns tons e fazer notas agudas. Seus ouvidos se agradariam em ouvi-las. E agora que terminou a pausa você retorna querendo retomar o concerto. Tivemos um ensaio. Eu tentando tocar outras canções e você insistindo na  que é ilegal. Clandestinidade.

Longe de ti eu sou solista. Leio outras partituras e tento encontrar uma parte tua. A canção proibida só é tocada sem alarde, atrás das cortinas. Dispensa plateia. Agora eu te escrevo para que você saiba que depois daquele ensaio eu vibrei por dentro como as cordas do meu instrumento. O reencontro foi a prova de que a musicalidade que há em nós e que nos mantém atados nunca para. É um jeito de fazer o show continuar.

sábado, 29 de junho de 2013

O medo que ainda me persegue


Todo mundo já teve ou ainda mantém dentro de si algum medo. Eu tenho vários. Alguns perderam a força ao longo do tempo, como por exemplo o medo de lagartixa, que começou quando uma dessas malditas caiu em cima da minha cama. Também não suporto rato, sapo e cobra. Além do nojo, esses três são capazes de tirar o meu sossego. Não gosto nem de vê-los mortos.
Há amigos meus que possuem uns medos que valem a pena ser citados: de galinha, de bonecas, de trovões e relâmpagos; medo de barata, panela de pressão, escuro e tantas outras coisas. São tantos temores que chego a me sentir a maior das corajosas diante de alguns deles.

A maioria das crianças desenvolvem certos medos que, na fase adulta, tornam-se motivos de boas risadas ao serem relembrados. O meu, embora eu comente com um certo humor, ainda me persegue até os dias de hoje. E tudo começou com alguma reportagem da televisão, quando eu tinha seis anos de idade. Não sei se foi impressão minha, mas bastou eu me dar conta da possível existência do assunto que ele se tornou um dos mais falados na época. Então, toda semana era uma reportagem especial em algum programa jornalístico, o que me deixava ainda mais impressionada. Prova disso é a vinheta do Globo Repórter e do Fantástico me remeterem ao tempo em que eu não conseguia nem ouvi-las de tanto medo. Eu levantava correndo pra mudar de canal. O azar era tão grande que nem televisão com controle remoto eu tinha. Daí o coração acelerava por duas razões: pelo desespero que a reportagem me dava e pela correria.

Atualmente, continuo sem conseguir assistir uma reportagem sequer, ou ler algum artigo científico e principalmente discussões sobre o assunto. Um céu estrelado, para mim, nem sempre é motivo de beleza, pois ele pode conter uma surpresa bem desagradável de acordo com a minha imaginação que, nesse sentido, não mudou nada da infância até aqui. Os aviões que passam à noite ajudam a reforçar essa fantasia; suas luzes piscando, o próprio ruido em si quando ele está se aproximando...
Ainda não conheci alguém tenha o mesmo pavor que eu. Ou, talvez, ninguém queira assumir. O fato é que  o medo que ainda me persegue é o medo de ET.

A lembrança que tenho da fase mais cruel desse medo é que em 1996, em Minas Gerais (para o meu desespero) surge o caso do ET de Varginha. Sendo assim, a possibilidade de eu encontrar com algum era grande. As reportagens ficaram constantes e o meu medo aumentando proporcionalmente a elas. Com isso, as pequenas coisas da minha vida começaram a ser afetadas: eu já não ia mais sozinha do quarto até o banheiro. "Mãe, vai comigo. O ET vai me pegar"; dormir com a luz acesa e se cobrir por inteira com a coberta, como se debaixo dela fosse o lugar mais seguro do mundo;  quando eu acordava no meio da noite, corria para os pés da minha mãe na cama.

Por causa desse medo eu demorei um pouco mais para abrir a cabeça de que eu deveria estudar o sistema solar, temendo sempre que o termo extraterrestre viesse à tona. Continuo não gostando dessa palavra, mudando de canal ou fechando a página da internet quando ela é citada. Revistas de ufologia? Não quero nem saber das novidades! Já me basta a afirmação "o universo é grande demais para haver vida somente na Terra."

Para escrever esta postagem, fiz uma busca com a palavra-chave ET de Varginha. Não foi uma leitura tranquila, confesso. Se fosse para mim a aparição, não sei se eu teria sobrevivido para contar o caso, tamanho o susto. A descrição da Wikipédia:

"Conforme os programas de televisão e as home pages que apareceram depois do Incidente de Varginha, a criatura extraterrestre possui as seguintes características:
Cabeça grande e careca;
Olhos grandes, vermelhos e sem pupila;
Língua preta, estreita e comprida;
Três pequenas saliências na cabeça parecidas com chifres, um no meio e dois ao lado;
Pele marrom ou castanho e escura, coberta por uma oleosidade brilhante;
Veias salientes e vermelhas no rosto, ombro e braços;
Três dedos nas mãos e pés grandes com dois dedos e sem unhas;
Aproximadamente 1,60 m de altura e produzia um som parecido com zumbido de abelha.Essas características correspondem àquelas do "Gray", um tipo famoso do extraterrestre comentado pelos ufólogos americanos." (http://pt.wikipedia.org/wiki/Incidente_de_Varginha Acesso em 28/06/2013).

Nada do que se refere a ETs foi visto com bons olhos por mim, salvo o marciano Marvin, personagem da Looney Tunes, mas por um detalhe que eu só fui me dar conta anos depois. No episódio Haredevil Bugs, do Pernalonga, ele quer destruir a Terra, dizendo que esta atrapalha sua visão para Vênus. Como só prestei atenção no nome do planeta, achei que ele era de Vênus. Outro detalhe é que Marvin não possui traços comuns de um alienígena: ele possui um rosto negro do qual só se podem ver os olhos grandes, uma roupa de soldado romano (referência a Marte também ser o deus da guerra romano) e um par de tênis de basquete. 


Há alguns anos, enquanto eu descia a rua da minha casa, vi um avião e, perto dele, uma luz muito forte, parada. Um vizinho também estava observando, quando de repente a luz se moveu rapidamente à direita da aeronave que se aproximava e desapareceu. A luz era muito maior do que aquelas do avião e que ficam piscando. O homem então começa a me contar uma história de um parente dele que viu um disco voador uma vez, etc, como se eu fosse corajosa o bastante para ouvir esses casos. Desci a rua correndo e entrei pra casa antes que o suposto OVNI pudesse chegar mais perto.

O medo que ainda me persegue pode fazer com que uma frase simples do Chaves "Já chegou o disco voador" possa surtir um efeito destruidor se forem ditas para medrosos assumidos como eu.
Eu não sei se isso vai passar. Talvez não. Se for verdade que acontecem visitas de ETs aqui na Terra, eu só espero que eu não seja testemunha disso. Há relatos de gente que foi abduzida. Por ora, só posso dizer que quem me abduziu foi esse medo besta!

                           

"Oh seu moço do disco voador,  me leve com você pra onde você for.
Oh seu moço, mas não me deixe aqui enquanto eu sei que tem tanta estrela por ai." Deus me livre, Raul Seixas! Deus me livre mesmo.





segunda-feira, 24 de junho de 2013

Ser Clarice


"Eu queria tanto que você não fugisse de mim, mas se fosse eu, eu fugia*." ( Clarice Falcão)

Gosto do concreto, por isso não sei lidar com silêncios. Gosto de sentir o coração acelerado porque me faz relembrar de que estou viva. Cada batida é sinal de vida. (Clarisse Reis)

''Farei o possível para não amar demais as pessoas, sobretudo, por causa das pessoas. Às vezes o amor que se dá pesa, quase como uma responsabilidade na pessoa que o recebe. Eu tenho essa tendência geral para exagerar, e resolvi tentar não exigir dos outros senão o mínimo. É uma forma de paz." (Clarice Lispector).
Ser Clarice é ser palavra. É um dom.




*Canção de Clarice Falcão que descreve com precisão a minha "psicopatia afetiva".

domingo, 23 de junho de 2013

Sábado à noite


Sábado à noite
é o dia que as minhas ausências se aguçam e tudo me falta. O que é possível resgatar vira palavra. A palavra se transforma em presença e me faz companhia. O rádio toca as coletâneas que nunca tiveram a chance de embalar beijos, olhares, abraços e tantos outros toques. Embalam somente o meu desejo de concretizar todas essas coisas.

Sábado à noite é o dia do encontro dos namorados que enchem as praças e os castelos com luzes de neon e impregnam os lençóis com a satisfação de seus prazeres; dia das noivas deslumbrantes com seus noivos caminhando sobre o tapete vermelho em direção ao altar para jurar fidelidade e amor eterno; dia do encontro daqueles que por mim passaram com suas altas doses de bebidas na tentativa de preencher o vazio de seus abandonos.

Sábado à noite é o dia que eu  deveria me infiltrar naquele cobertor para que fosse sentido com a pele o que somente os olhos e os ouvidos sentiram. Felizmente não pude. Hoje sei que tal cobertor não pertence somente a um corpo.

Sábado à noite é o dia que o meu choro é um clamor; dia que Criador fala ao meu coração sem paciência e que se faz de surdo, que eu me rendo aos excessos, lamento paixões que se foram e as que ainda não vieram. Esse dia é espera, martírio e incerteza; é a véspera daqueles domingos que tive e que não voltarão nunca mais.
Um Sábado à noite é um dia que eu ainda quero ter.




terça-feira, 18 de junho de 2013

A Zica que é sorte para mim


São Paulo, terra onde o meu coração descansa. Esse estado maravilhoso é a minha segunda casa e eu digo isso  com muita propriedade e com o peito cheio de orgulho. Sou grata a esse lugar por toda as alegrias que me proporcionou e por um amor que eu tive conheci. Amor que se transformou em uma amizade preciosa que  está num eterno processo de sobrevivência devido aos conflitos que sempre surgem, que na maioria das vezes se devem à minha natureza impulsiva. Mas o amor não é o que "tudo sofre, tudo crê, tudo espera, tudo suporta"? (1 Coríntios 13:7). Amor de verdade não acaba, se transforma e se multiplica. O "amado" em questão é prova disso. Se tudo o que eu tinha por ele era Eros, agora é Filos e se multiplicou. Nessa multiplicação veio alguém que mudou a minha vida, uma Zica que é sorte para mim.

A postagem de hoje carece de palavras. É apenas uma lembrança para ti e um jeito de estarmos mais próximas,  ignorando o fator mais cruel que nos separa: a longa distância. Eu queria ter a sorte de passar ao seu lado a melhor estação do ano, o inverno. Certifico-me de que o Criador será conosco e verá o quanto merecemos estar juntas para que possamos desfrutar mais momentos felizes como aqueles de outrora e que enchem os meus olhos ao me lembrar deles.

Zica, você é um presente lindo que Deus me deu. Eu sinto sua falta porque depois que eu te vi eu não soube mais viver sem você, sem o seu riso, seu grito escandaloso, sua companhia, sua mania francesa, seu Yakisoba; Sem seus palavrões que no fundo são a sua demonstração de carinho comigo e a gente sabe disso. Sinto falta de ter o seu rosto pela manhã como a primeira coisa pra eu ver. Sinto falta de dividir o cobertor com você no inverno. Você é a minha outra metade louca, a extensão do meu coração. Ao seu lado eu tive os melhores dias da minha vida.

Por hoje é só. Nem sempre se consegue traduzir em muitas palavras o que se pode ser dito em apenas uma: SAUDADE. Se lembra quando a gente dizia "nunca te vi, sempre te amei"? O nosso amor durará para sempre, fortalecido pelo nosso encontro que enfim se deu.
Sua alcunha não é azar coisa nenhuma! Essa Zica que é sorte para mim.

Passeio em Santo André, cidade que o meu coração abriga