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domingo, 10 de maio de 2015

Saudade com final feliz


De todas as sensações que o meu coração tem, a saudade é uma das mais constantes. Quando não é possível suportá-la, muitas vezes ela acaba se mesclando com a dor de uma ausência que não consigo preencher. Hoje, estou aqui para falar de uma saudade digna, livre. Que posso sentir e matar, sem medo, culpa e engano.

Essa semana, numa quinta-feira fria de outono em que eu oscilava entre estar aflita e estar mais ou menos, ouvi no rádio uma música bonita que conheci recentemente: Qualquer palavra. A voz linda do Lenine somada à leveza da melodia e da letra me despertou uma saudade daquele que é a expressão perfeita da música que há em mim. Imaginei a canção na sua voz e seus acordes, ambos de perfeição e poder de cura incomparáveis. Cura, a palavra-chave para o que eu precisava.

Peguei o telefone, buscando o nome dele. Nome que remete à palavra, ao livro de verbetes, definições e significados; que está organizado em ordem alfabética. Se ele soubesse que quando se faz presente em minha vida, sob os holofotes,  me organiza por dentro de A a Z...

Liguei. A voz dele, o tempo todo, soava como se ele estivesse cantando. Falei sobre sua lembrança que me ocorreu enquanto eu ouvia a música, e que esta era a razão do meu contato. E é tão bom poder surgir na vida do outro a qualquer momento.

A quinta-feira fria de outono não foi só de tristeza. O encontro que se deu naquela noite renovou meus ânimos. Há sorrisos que nos dizem o quanto somos bem-vindos. Há canções que nos curam. Há abraços que nos devolvem o que a distância e a falta de tempo nos roubaram. Saudade com final feliz pode sempre ser sentida. É indolor.





sábado, 6 de dezembro de 2014

Sóbria e nua


Sabe estes seus prazeres habituais próprios das noites de sextas-feiras ou sábados quentes? Eu jamais poderia acompanhar, porque ainda que eu pareça ser esse poço de profanidade, em relação a você, estou a um passo de ser canonizada. Para que você tenha ideia, o único álcool que permiti adentrar à minha corrente sanguínea foi o do vinho da santa ceia nos tempos em que eu ocupava o banco do templo, sonhava em chegar ao altar trajando, merecidamente,  o vestido branco e o longo véu marcador social de pureza e castidade. Eu disse bem: social. Debaixo dos panos desta vida e também desta veste de noiva, o que de fato ocorre só o corpo que os ocupam  e o corpo que faz a invasão sabem. Segredo. Toda moça é pura  até que dela surja uma outra vida. Alarde.
Mas eu não bebo e nem me visto. Estou sóbria e nua na vida. 

sábado, 15 de novembro de 2014

O primeiro quarteto


Quando a minha menina chegar, ela se chamará como aquela que tem como o sobrenome Meireles. Lá em casa todo mundo será feito de palavra, em verso: Pedro (Bandeira) e Cecilia (Meireles) vindos de Clarisse (Lispector) e de algum desses Vinícius, Mários, Oswalds, Paulos ou Drummonds que a vida quiser - se é que vai querer - me dar. 

Eu sou uma palavra que busca outra. O nosso encontro será uma rima. Nós e os frutos dessa rima seremos uma família, mas eu prefiro chamar de estrofe, porque estrofe nada mais é que a soma de palavras que se sintonizaram em versos ditando o ritmo, a métrica. Cada um de nós é verso e, juntos, vamos ser, quem sabe, o primeiro quarteto do Soneto de Fidelidade* que é, para mim, a expressão da perfeição de uma estrofe. 

Duas palavras. Uma rima, a sintonia. Amor em poesia. Primeiro um verso, depois outro, depois outro e mais um último. Com as mãos unidas, surgirá um quarteto. Começará em mim, um ser atento, procurando aquele que eu quero tanto. Desejo e amor darão vida a quem tem nome cheio de encanto, irmão daquela que, hoje, deu início a essa desordem, verbalização do meu pensamento.

Primeira estrofe do Soneto de Fidelidade, de Vinícius de Moraes. Manuscrito: Clarisse Reis

segunda-feira, 27 de janeiro de 2014

Confusão

Deixa, deixa, deixa eu dizer o que penso desta vida, preciso demais desabafar!♪

Confusão. Essa é a descrição mais próxima do que está passando pela minha cabeça desde que decidi escrever aqui novamente. São pensamentos desordenados, reflexões sensatas, desejo, repulsa, amor, desamor. Tudo se contrapõe na mesma proporção. Frases soltas querem ser assuntos isolados, mas usarei a beleza de cada uma delas na construção do todo. Ainda não sei qual será a resultante dessa fusão. Se eu conseguir me desafogar com as palavras, já estarei satisfeita.

Confusão. Hoje, 26 de janeiro de 2014, faz exatos 10 anos que eu comecei a escrever um diário - em uma agenda que ganhei de presente - para registrar os caminhos do meu coração naquela época. Comecei dizendo que aquelas folhas seriam insuficientes para eu contar os meus segredos. Eu tinha esperança de que quando eu ficasse mais velha os relatos serviriam para eu rir daquela fase. Dez anos se passaram e concluo que verdadeiramente muita coisa mudou, mas continuo com os afetos e a sensibilidade de uma menina de 15 anos, mas com 10 anos de experiência. Síndrome de Peter Pan? Não. É apenas o meu coração que se nega a se corromper, embora nem sempre seja assim. Tenho o hábito de escrever tudo o que arde em meu coração. Escrever é catarse e está proibido calar catarses.

Confusão. Eu gostaria de registrar o turbilhão de pensamentos que me ocorre quando estou dentro do ônibus. Com a cabeça encostada na janela, a paisagem ficando para trás, eu faço um filme com o que acontece de trágico e cômico em  minha vida. As baladas que tocam no meu fone de ouvido parecem fazer parte do roteiro. O solo de guitarra entra em sincronia com o vento que balança o meu cabelo. Esse filme eu ensaio, dirijo, enceno e assisto. Rio e choro com as minhas histórias. Sou a mocinha, a heroína, a vilã, a negra de vozeirão dos musicais. Eu sou a outra. Sou convidada e intrusa. Sou Cinderela que ultrapassa a meia- noite e duelo, indiretamente, com a Bela Adormecida, essa princesa que não sabe que seu príncipe se aproveita do seu sono. 

Confusão. Minhas vontades não se entendem. Há em mim um desejo de convencer alguém a ficar e também de mandar um outro ir embora, aquele que, na verdade, já se foi e nunca deveria ter voltado. Mas meu coração, condomínio sem guarita, permitiu alguns acessos desse ladrão de subjetividade e dignidade; ladrão de tempo, sonhos e moeda também. Ladrão que se sente no direito de estipular valores, de investir muito no superficial e poupar no profundo. Ladrão que ostenta proporcionalmente ao tamanho de seu vazio.

Confusão. Estou no dia da semana em que sempre há o começo do ciclo da partida e chegada e das partidas de uma nova temporada dos guerreiros celestes. Somos nós, de novo, na mesma sintonia. É o meu coração que se acelera, e dessa vez se acelerou no fim da tarde, adiantando a minha alegria dominical e a saudade semanal num encontro secreto, breve e sem despedida.

Confusão. Não tenho mais o que dizer. Já me sinto satisfeita por conseguir fazer dessa desordem minha plenitude. Esse escrito foi só uma fuga. Eu disse tudo, sem dizer nada com nada.

sábado, 29 de junho de 2013

O medo que ainda me persegue


Todo mundo já teve ou ainda mantém dentro de si algum medo. Eu tenho vários. Alguns perderam a força ao longo do tempo, como por exemplo o medo de lagartixa, que começou quando uma dessas malditas caiu em cima da minha cama. Também não suporto rato, sapo e cobra. Além do nojo, esses três são capazes de tirar o meu sossego. Não gosto nem de vê-los mortos.
Há amigos meus que possuem uns medos que valem a pena ser citados: de galinha, de bonecas, de trovões e relâmpagos; medo de barata, panela de pressão, escuro e tantas outras coisas. São tantos temores que chego a me sentir a maior das corajosas diante de alguns deles.

A maioria das crianças desenvolvem certos medos que, na fase adulta, tornam-se motivos de boas risadas ao serem relembrados. O meu, embora eu comente com um certo humor, ainda me persegue até os dias de hoje. E tudo começou com alguma reportagem da televisão, quando eu tinha seis anos de idade. Não sei se foi impressão minha, mas bastou eu me dar conta da possível existência do assunto que ele se tornou um dos mais falados na época. Então, toda semana era uma reportagem especial em algum programa jornalístico, o que me deixava ainda mais impressionada. Prova disso é a vinheta do Globo Repórter e do Fantástico me remeterem ao tempo em que eu não conseguia nem ouvi-las de tanto medo. Eu levantava correndo pra mudar de canal. O azar era tão grande que nem televisão com controle remoto eu tinha. Daí o coração acelerava por duas razões: pelo desespero que a reportagem me dava e pela correria.

Atualmente, continuo sem conseguir assistir uma reportagem sequer, ou ler algum artigo científico e principalmente discussões sobre o assunto. Um céu estrelado, para mim, nem sempre é motivo de beleza, pois ele pode conter uma surpresa bem desagradável de acordo com a minha imaginação que, nesse sentido, não mudou nada da infância até aqui. Os aviões que passam à noite ajudam a reforçar essa fantasia; suas luzes piscando, o próprio ruido em si quando ele está se aproximando...
Ainda não conheci alguém tenha o mesmo pavor que eu. Ou, talvez, ninguém queira assumir. O fato é que  o medo que ainda me persegue é o medo de ET.

A lembrança que tenho da fase mais cruel desse medo é que em 1996, em Minas Gerais (para o meu desespero) surge o caso do ET de Varginha. Sendo assim, a possibilidade de eu encontrar com algum era grande. As reportagens ficaram constantes e o meu medo aumentando proporcionalmente a elas. Com isso, as pequenas coisas da minha vida começaram a ser afetadas: eu já não ia mais sozinha do quarto até o banheiro. "Mãe, vai comigo. O ET vai me pegar"; dormir com a luz acesa e se cobrir por inteira com a coberta, como se debaixo dela fosse o lugar mais seguro do mundo;  quando eu acordava no meio da noite, corria para os pés da minha mãe na cama.

Por causa desse medo eu demorei um pouco mais para abrir a cabeça de que eu deveria estudar o sistema solar, temendo sempre que o termo extraterrestre viesse à tona. Continuo não gostando dessa palavra, mudando de canal ou fechando a página da internet quando ela é citada. Revistas de ufologia? Não quero nem saber das novidades! Já me basta a afirmação "o universo é grande demais para haver vida somente na Terra."

Para escrever esta postagem, fiz uma busca com a palavra-chave ET de Varginha. Não foi uma leitura tranquila, confesso. Se fosse para mim a aparição, não sei se eu teria sobrevivido para contar o caso, tamanho o susto. A descrição da Wikipédia:

"Conforme os programas de televisão e as home pages que apareceram depois do Incidente de Varginha, a criatura extraterrestre possui as seguintes características:
Cabeça grande e careca;
Olhos grandes, vermelhos e sem pupila;
Língua preta, estreita e comprida;
Três pequenas saliências na cabeça parecidas com chifres, um no meio e dois ao lado;
Pele marrom ou castanho e escura, coberta por uma oleosidade brilhante;
Veias salientes e vermelhas no rosto, ombro e braços;
Três dedos nas mãos e pés grandes com dois dedos e sem unhas;
Aproximadamente 1,60 m de altura e produzia um som parecido com zumbido de abelha.Essas características correspondem àquelas do "Gray", um tipo famoso do extraterrestre comentado pelos ufólogos americanos." (http://pt.wikipedia.org/wiki/Incidente_de_Varginha Acesso em 28/06/2013).

Nada do que se refere a ETs foi visto com bons olhos por mim, salvo o marciano Marvin, personagem da Looney Tunes, mas por um detalhe que eu só fui me dar conta anos depois. No episódio Haredevil Bugs, do Pernalonga, ele quer destruir a Terra, dizendo que esta atrapalha sua visão para Vênus. Como só prestei atenção no nome do planeta, achei que ele era de Vênus. Outro detalhe é que Marvin não possui traços comuns de um alienígena: ele possui um rosto negro do qual só se podem ver os olhos grandes, uma roupa de soldado romano (referência a Marte também ser o deus da guerra romano) e um par de tênis de basquete. 


Há alguns anos, enquanto eu descia a rua da minha casa, vi um avião e, perto dele, uma luz muito forte, parada. Um vizinho também estava observando, quando de repente a luz se moveu rapidamente à direita da aeronave que se aproximava e desapareceu. A luz era muito maior do que aquelas do avião e que ficam piscando. O homem então começa a me contar uma história de um parente dele que viu um disco voador uma vez, etc, como se eu fosse corajosa o bastante para ouvir esses casos. Desci a rua correndo e entrei pra casa antes que o suposto OVNI pudesse chegar mais perto.

O medo que ainda me persegue pode fazer com que uma frase simples do Chaves "Já chegou o disco voador" possa surtir um efeito destruidor se forem ditas para medrosos assumidos como eu.
Eu não sei se isso vai passar. Talvez não. Se for verdade que acontecem visitas de ETs aqui na Terra, eu só espero que eu não seja testemunha disso. Há relatos de gente que foi abduzida. Por ora, só posso dizer que quem me abduziu foi esse medo besta!

                           

"Oh seu moço do disco voador,  me leve com você pra onde você for.
Oh seu moço, mas não me deixe aqui enquanto eu sei que tem tanta estrela por ai." Deus me livre, Raul Seixas! Deus me livre mesmo.





segunda-feira, 24 de junho de 2013

Ser Clarice


"Eu queria tanto que você não fugisse de mim, mas se fosse eu, eu fugia*." ( Clarice Falcão)

Gosto do concreto, por isso não sei lidar com silêncios. Gosto de sentir o coração acelerado porque me faz relembrar de que estou viva. Cada batida é sinal de vida. (Clarisse Reis)

''Farei o possível para não amar demais as pessoas, sobretudo, por causa das pessoas. Às vezes o amor que se dá pesa, quase como uma responsabilidade na pessoa que o recebe. Eu tenho essa tendência geral para exagerar, e resolvi tentar não exigir dos outros senão o mínimo. É uma forma de paz." (Clarice Lispector).
Ser Clarice é ser palavra. É um dom.




*Canção de Clarice Falcão que descreve com precisão a minha "psicopatia afetiva".

domingo, 23 de junho de 2013

Sábado à noite


Sábado à noite
é o dia que as minhas ausências se aguçam e tudo me falta. O que é possível resgatar vira palavra. A palavra se transforma em presença e me faz companhia. O rádio toca as coletâneas que nunca tiveram a chance de embalar beijos, olhares, abraços e tantos outros toques. Embalam somente o meu desejo de concretizar todas essas coisas.

Sábado à noite é o dia do encontro dos namorados que enchem as praças e os castelos com luzes de neon e impregnam os lençóis com a satisfação de seus prazeres; dia das noivas deslumbrantes com seus noivos caminhando sobre o tapete vermelho em direção ao altar para jurar fidelidade e amor eterno; dia do encontro daqueles que por mim passaram com suas altas doses de bebidas na tentativa de preencher o vazio de seus abandonos.

Sábado à noite é o dia que eu  deveria me infiltrar naquele cobertor para que fosse sentido com a pele o que somente os olhos e os ouvidos sentiram. Felizmente não pude. Hoje sei que tal cobertor não pertence somente a um corpo.

Sábado à noite é o dia que o meu choro é um clamor; dia que Criador fala ao meu coração sem paciência e que se faz de surdo, que eu me rendo aos excessos, lamento paixões que se foram e as que ainda não vieram. Esse dia é espera, martírio e incerteza; é a véspera daqueles domingos que tive e que não voltarão nunca mais.
Um Sábado à noite é um dia que eu ainda quero ter.




sábado, 13 de abril de 2013

Mi pareja perfecta

Estaba tan cerca de mí. No me dí cuenta cuando lo conocí.♪ (Fuerte, Fernando Carillo)

A mí me gustaria mucho tener un novio, pero hasta hoy no encontré nadie para ser mi pareja perfecta.
Yo espero que un buen día voy a encontrarlo, sea en la calle, en el cine, en la playa, en la escuela donde trabajo o en la propia universidad donde estudio.
No sé... mientras él no llega, puedo soñar con el gran día. Imagina que yo puedo decidir como mi futuro novio será. Entonces yo quiero uno que sea así: simpático, gracioso, ¡un poquito hermoso también es bueno!
Que él sea inteligente, que tenga una linda sonrisa, sea alto, un poquito fuerte, que lleve anteojos (pues a mi me gustan los hombres que llevan anteojos); que él tenga cabellos negros, pero los ojos de cualquier color.
Pero, sobre todo, que mi pareja perfecta tenga un gran corazón, que ame a mi y a Dios también.

Para você, Guilherme, que desejou que este texto - um simples exercício da aula de espanhol - fosse compartilhado em uma página do meu diário.
Besos.

domingo, 10 de março de 2013

Casamento

Eu sempre fico pensando sobre os efeitos do tempo nos relacionamentos longos, especificamente nos casamentos.
Início de envolvimento é tão bom! Os primeiros olhares, os  primeiros toques, o frio na barriga, o medo de desagradar. Enfim, toda novidade contida.
Com o passar dos anos é certo que essas coisas sejam perdidas, mas ganha-se muito também como intimidade e cumplicidade. 
E o que é que mantém aceso o amor? Sabemos que eterno é aquilo que se renova todos os dias.
Outro dia, durante a aula de Estudos línguisticos e literários na faculdade, nos foi dado um poema da grande Adélia Prado e que trouxe várias respostas para mim, além de  me envolver com a intensidade do amor da noiva que resgata suas primeiras sensações com seu amado. 
Quando eu me projeto neste poema, acalmo o meu coração que  tanto espera pelo noivo e guarda a sabedoria existente na história desta noiva que não é submissa a seu homem, mas que se rende por inteira ao amor.



Casamento
 Adélia Prado

Há mulheres que dizem:
Meu marido, se quiser pescar, pesque,
mas que limpe os peixes.
Eu não. A qualquer hora da noite me levanto,
ajudo a escamar, abrir, retalhar e salgar.
É tão bom, só a gente sozinhos na cozinha,
de vez em quando os cotovelos se esbarram,
ele fala coisas como "este foi difícil"
"prateou no ar dando rabanadas"
e faz o gesto com a mão.
O silêncio de quando nos vimos a primeira vez
atravessa a cozinha como um rio profundo.
Por fim, os peixes na travessa,
vamos dormir.
Coisas prateadas espocam:
somos noivo e noiva.



Texto extraído do livro "Adélia Prado - Poesia Reunida", Ed. Siciliano - São Paulo, 1991, pág. 252.
Saiba mais sobre Adélia Prado e sua obra em "Biografias".

quinta-feira, 30 de agosto de 2012

Fechando as portas


E se tudo o que é bom durasse pra sempre? Mas não é assim. A vida nos permite experimentar vários sabores e é a intensidade deles é que tem sentido e grandeza, não o tempo que duram.

É necessário encerrar etapas para que possamos ter acesso a outras, assim como nos despedimos da infância para entrar na adolescência, da adolescência partimos para a fase adulta...

A vida é feita de chegadas e também de  partidas. Nelas há chance dos recomeços. A saudade é inevitável. Por vezes ela tem que ser o suficiente, sendo a única maneira de preservar alguém dentro de você. Este "preservar" não necessariamente significa manter a pessoa  em evidência em ti.

Fechar as portas e seguir em frente. Encerrar seu ciclo e permitir que o outro também o faça. O amor só é perfeito na liberdade. Não há nada mais grandioso do que saber que alguém voltou por vontade própria e não por pena, interesse, obrigação ou gratidão, mas porque você  foi uma escolha e a melhor que foi feita. Reconhecer e aceitar o retorno que não ocorreu é tão digno quanto.

Abro meu coração. Ele é minha porta de entrada. Se você aceita entrar, verá o quanto é intenso e verdadeiro tudo o que há por dentro dele. Porém, quando me vejo tendo que desfazer disso tudo, sofro. Não sei fechar portas. Finjo fechá-las, mas deixo sempre uma fresta para que eu possa ver partir desaparecendo no horizonte e, lamentavelmente, mantendo a esperança de que um dia volte... Não sei, de repente  alguma coisa seja esquecida para trás e tenha que voltar pra pegar ou, percebendo que a porta não foi totalmente fechada, repense e regresse.

Já tentei seguir a filosofia de vida  "carpe diem", mas sempre tenho desejo de continuidades.
Só sei abrir.Fechar as portas é algo que ainda preciso aprender a fazer... rápido.



"Não desista de nós, não desista do amor
Se minha vida é o preço, então minha vida que valerá
Não se afaste em silêncio.
 (...) Oro pra que amanhã você volte pra casa
Nós podemos reconstruir e sempre nós podemos continuar
Continuar e continuar
Nós podemos continuar, oro pra que amanhã você volte pra casa.
Olho pro horizonte e deixo a luz trazer você pra casa, trazer você pra casa."
(Creed, Away in silence)

quarta-feira, 15 de agosto de 2012

Me aproximo de você

♪ If you walk out on me, I'm walking after you ♫

Odeio despedidas, mas elas são uma realidade constante para mim.
Pudera eu ser grande o suficiente para fazê-lo permanecer em minha vida. Se eu tivesse um único motivo forte para que você não pudesse ir embora...

De longe, pude ver o teu farol como uma luz no fim do túnel. Esperança.
Com passos sincronizados às batidas do meu coração, me aproximo de você.
Abro uma porta. Sorrio. O teu olhar me revela que outra foi fechada.
A porta se fecha e me fere. A cura vem em bom tom: Sol maior. Perfeito para sua voz que acompanhava o verso "Para todo mal, a cura" e para a clave que marcaria meu ombro posteriormente. Ela marcou também o teu braço.

Na estrada, o percurso que o meu coração conhecia. Ele já batera intensamente ali em um misto de medo, vontade e vergonha.
Fingi não ver as luzes que você me apresentou. Percebi seu sorriso sutil, certa de que você também teve recordações. Me contive. O desejo era de te tomar pela mão e correr sob a chuva que caia do mesmo modo do dia das lembranças que vieram. Hoje ela caia diferente: como lágrima, talvez prevendo a despedida.
Eu portava um arsenal de cor, cheiro, movimento e som, mas a  noite acabou na hora em que costumava começar.  Você não pôde ver.

Fim da estrada, me aproximo de você. A única coisa que me coube foi um aperto de mão. Peguei de volta o meu coração que estava contigo, olhei você por dentro e te agradeci por todos os outros dias, como se fosse possível caber numa frase tudo o que senti por te ter por perto, mesmo que por pouco tempo. Tempo curto, valioso e eternizado.
O quarto, por uns instantes, foi santuário. De joelhos, em oração, agradeci e chorei. O Criador estava lá.

Me aproximo de você a cada lembrança do teu olho cor das folhas que caem no outono.
Me aproximo de você a cada lembrança do teu sorriso iluminado como o sol de verão.
Me aproximo de você a cada lembrança do teu abraço, meu anseio nas noites de  inverno.
Me aproximo de você a cada lembrança do teus belos pés que me conduziram a um caminho de descobertas e recomeços, como na primavera.
Me aproximo de você a cada estação do ano, cada mês. De janeiro a janeiro.
Me aproximo de você no brilho do neon, no sabor do fruto com a massa, no riso da plateia, no coração de papel que foi tratado como arte inútil.
Me aproximo de você  a cada chuva, acorde e  solo. A cada sacrifício em minha própria prisão. 
Me aproximo de você  com os braços bem abertos..
Se você se afasta de mim, eu estou me aproximando de você. Esta canção te mantem dentro de mim.

    

sexta-feira, 21 de outubro de 2011

Uma carta ao Amor*

Fotografia gentilmente cedida por Tiago Gonçalves que  escreve no blog  Lindo sonho delirante
Belo Horizonte, 10 de Outubro de 2011.

Amor Ágape e Eros, dois em um. 
Quando puderem, venham me fazer uma visita. Pode até ser que vocês gostem de mim e resolvam ficar para sempre, porque o Amor Plâtônico se acomodou e não quer mais ir embora... Eu já o expulsei da minha vida e não foram poucas as vezes. Não adianta... Ele sempre volta. Só muda a cara, a voz e o corpo, mas sua essência é a mesma. Cansei.
Vocês têm meu endereço e a porta de entrada está aberta, esperando-os. Fiquem à vontade e permaneçam para sempre, por favor. Este é o meu desejo.
Agradeço e despeço com vontade de que não demorem muito a chegar porque a minha vida é louca... Louca e breve.
Sem mais.
De todo coração,
Clarisse 

*Este foi o comentário que fiz no Blog da Multimulher, da minha amiga Chris Valiceli, em sua carta em que ela também abria o coração escrevendo uma "Carta aberta ao amor".
Honestamente falando: Se houvesse outra vida, eu queria ter menos ou nenhum amor platônico... E eu acho que hoje, aos 22 anos, ainda tenho muito desse tipo de amor dentro de mim

domingo, 12 de junho de 2011

Me matando suavemente

"O músico", Aurélio Leal
Admito o quando acho intenso o título desta postagem se desconsiderarmos que ela é a tradução de uma música que gosto muito: "Killing Me Softly". Mas só hoje, assistindo a um video da Maria Gadu e Tiago Iorc cantando, tive a curiosidade de saber o que ela diz. 
É simplesmente a história dos personagens que sempre entram em cena nas noites de segunda-feira: "O músico" e a " Senhora Robinson", pude perceber.


Me Matando Suavemente

Dedilhando minha dor com seus dedos
Cantando minha vida com suas letras
Me matando suavemente com sua música
Me matando suavemente, com sua música
Contando minha vida inteira
Com suas palavras, me matando suavemente com sua música


Eu ouvi dizer que ele cantava boas músicas, Eu ouvi dizer que ele tem estilo
E então eu vim para vê-lo e ouvir por um tempo
E lá estava ele, esse jovem garoto, um estranho aos meus olhos

Eu me senti toda vermelha de febre, envergonhada pela multidão
Eu senti que ele achou minhas cartas, e leu cada uma bem alto
Eu orei pra que ele estivesse acabando, Mas ele simplesmente continuou

Ele cantou como se me conhecesse, e todo meu desespero escuro
Ele continuou a olhar através de mim como se eu não estava lá
E então ele continuou a cantar, cantar claro e forte.

Versão de Lauryn Hill, Killing Me Softly:



terça-feira, 5 de abril de 2011

5 segundos


A gente leva quase um ano para a consumação de um fato e, de repente, tal fato não acontecer mais, vira uma grande possibilidade. Certo fazemos quando esperamos para ver, para que o nosso coração aceite ou se martirize com a verdade que há de vir.

Poucos segundos... Esse foi o tempo que durou. Foi o tempo  que os meus olhos captaram a imagem, o  coração a absorveu e me impulsionou a levantar da cadeira com um sorriso que precisava ser notado, mesmo que tenha sido muito ensaiado. Na verdade o ensaio foi invalidado no momento em que o sorriso saiu, porque ele foi único.

Em passos cambaleantes segui, abri os braços e recebi. Durou 5 segundos... 
Permiti que as intensas batidas do meu coração, agora tão perto, falassem por mim. Que os meus olhos, preenchidos por aquilo que agora é uma realidade e não mais apenas saudade, fossem capazes de revelar o que não pode ser mais segredo: O quanto estive feliz durante 5 segundos, que eu temi não ter nunca mais.
5 segundos... Foi o  tempo que durou um abraço. 

segunda-feira, 7 de março de 2011

Senhora Robinson, a origem

Senhora Robinson, interpretada pela atriz Anne Bancroft
Esta história começou em meados de 2006, depois de ouvir Danni Carlos no Altas Horas cantando sucessos do cinema. Na semana seguinte, enquanto passava por um processo de espera, arrumava a casa e ouvia Emmerson Nogueira, reparei que era a mesma música que a Danni havia cantado, Mrs Robinson, de Paul Simon e Art Garfunkel.
Gostei tanto e coloquei para repetir várias vezes. Já tinha ouvido em outras situações, mas naquele dia era a primeira vez que ela me emocionava.
Então eu fui ver a tradução. O refrão é bonito e verdadeiro:

" E aqui está para você Sra. Robinson,
Jesus te ama mais do que você jamais saberá, wo wo wo ...
Deus te abençoe Sra. Robinson,
O céu sempre guarda um lugar pra aqueles que oram
(Hey, hey, hey, hey, hey, hey).

Gostei da tradução. Parecia que falava de uma mulher simples e apaixonada, igual a autora deste blog. Por isso, acabei me identificando com a letra, mas só depois eu soube de quem ela se tratava.

Tema do filme The graduate (ou A primeira noite de um homem, em português), esta música embala a história do jovem e recém formado, Ben, e seu romance secreto com a Senhora Robinson, uma mulher casada com o amigo de seu pai.
No entanto, a Senhora Robinson do filme e a da música são diferentes. Enquanto a da música parece ser uma pessoa pacata, a do filme é o avesso. Ela é indagada pelo jovem: Senhora Robinson, a senhora está tentando me seduzir, não está?

Já me lembrei de alguém enquanto ouvia Mrs Robinson, mas passado o tempo e as coisas no lugar, concluí que essa música na verdade é sobre mim, apenas sobre mim. Sei que sou fortemente lembrada por outras pessoas através dela.
o nome do blog nasceu disto: da ligação com a minha música favorita mais as histórias que preencheriam um diário: O Diário da Clarisse, a  Senhora Robinson, composta por Paul Simon.


Senhora Robinson
Esta aqui é para você, Senhora Robinson
Jesus te ama mais do que você saberá, wo wo wo...
Que Deus, por favor, a abençoe, Senhora Robinson,
O céu sempre reserva um lugar para os que oram
(Hey hey hey, hey hey hey).


Nós gostaríamos de saber
Um pouco sobre você,
É para os nosso arquivos.
Gostaríamos de ensinar-lhe
A ajudar a si mesma.
Olhe ao seu redor. Tudo o que você vê
São olhares simpáticos.
Rode por aí
Até que você se sinta em casa.


Esta aqui é para você Senhora Robinson
Jesus te ama mais do que você jamais saberá, wo wo wo...
Que Deus, por favor, a abençõe, Senhora Robinson,
O céu sempre reserva um lugar para os que oram
(Hey hey hey, hey hey hey).


Esconda em um local secreto
Aonde ninguém nunca vai
Coloque na despensa com seus bolinhos
É só um segredinho,
O romance dos Robinson
Mais que tudo, você precisa escondê-lo das crianças


Esta aqui é para você Senhora Robinson
Jesus te ama mais do que você jamais saberá, wo wo wo...
Que Deus, por favor, a abençõe, Senhora Robinson,
O céu sempre reserva um lugar para os que oram
(Hey hey hey, hey hey hey).


Sentada em um sofá
Numa tarde de domingo
Indo para o debate entre os candidatos
Ria de tudo, argumente tudo
Quando você precisa escolher
De todo jeito que você olhar para isso você perderá


Por onde andará você, Joe DiMaggio?
Toda uma nação está com os olhos solitários voltados para você Ooo ooo ooo.


O que foi que você disse Senhora Robinson?
Que o "Joe sacolejante" partiu e desapareceu?
Hey hey hey, hey hey hey...



segunda-feira, 3 de janeiro de 2011

Recado



Eu te amo não é bom dia.
Eu quero viver respirando seu amor e não morrer sufocada por ele.
Amar é estar perto.
É perdoar.
É vencer distâncias.
Hoje este é o meu desabafo.